Marcelo Coelho: Danilo Gentili e o “politicamente fascista”

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Reproduzo artigo de Marcelo coelho publicado na Folha de São Paulo e reproduzido no http://www.vermelho.org.br

O comediante Danilo Gentili pediu desculpas pela piada antissemita que divulgou no Twitter. A saber, a de que os velhos de Higienópolis temem o metrô no bairro porque "a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz". Aceitar suas desculpas pode ser fácil ou difícil, conforme a disposição de cada um. O difícil é imaginar que, com isso, ele venha a dizer menos cretinices no futuro.


Por Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo

Não aguentei mais do que alguns minutos do programa CQC, na TV Bandeirantes, do qual é ele uma das estrelas mais festejadas. Mas há um vídeo no YouTube, reproduzindo uma apresentação em Brasília do seu show Politicamente Incorreto, em outubro de 2010.

Dá para desculpar muita coisa, mas não a falta de graça. O nome oficial do Palácio do Planalto é Palácio dos Despachos, diz ele. "Deve ser por isso que tem tanto encosto lá." Quem o construiu foi Oscar Niemeyer, continua o humorista. E construiu muitas outras coisas, como as pirâmides do Egito.

A plateia tenta rir, mas só fica feliz mesmo quando ouve que Lula é cachaceiro, ou que (rá, rá) o nome real de Sarney é Ribamar. Prossegue citando os políticos que Sarney apoiou; encerra a lista dizendo que ele só não apoiou o próprio câncer porque "o câncer era benigno".

Os aplausos e risadas, pode-se acreditar, vêm menos da qualidade das piadas e mais da vontade de manifestação política do público. Detestam-se, com razão, os abusos dos congressistas brasileiros. Só por isso, imagino, alguém ri quando Gentili diz preferir que a capital do país ficasse no Rio: "Lá pelo menos tem bala perdida para acertar deputado".

Melhor parar antes que eu fique sem respiração de tanto rir. Como se vê, em todo caso, o título do show não é bem o que parece. "Politicamente incorreto", no caso, faz referência às coisas erradas feitas pelos políticos, mais do que ao que há de chocante em piadas sobre negros ou homossexuais.

A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" — e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica. Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.

Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. "Mulheres são burras!" "Ser contra a guerra é viadagem!" "Polícia tem de dar porrada!" "Bolsa Família serve para engordar vagabundo!" "Nordestino é atrasado!" "Criança só endireita no couro!"

Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: "Viram como sou inteligente?". "Como sou verdadeiro?" "Como sou corajoso?" "Como sou trágico?" "Como sou politicamente incorreto?"

O problema é que "politicamente incorreto", na verdade, é um rótulo enganoso. Quem diz essas coisas não é, para falar com todas as letras, "politicamente incorreto". Quem diz essas coisas é politicamente fascista. Só que a palavra "fascista", hoje em dia, virou um termo... politicamente incorreto.

Chegamos a um paradoxo, a uma contradição. O rótulo "politicamente incorreto" acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, "politicamente correta") de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.

A babaquice, claro, não é monopólio da direita nem da esquerda. Foi a partir de uma perspectiva "de esquerda" que Danilo Gentili resolveu criticar "os velhos de Higienópolis" que não querem metrô perto de casa.

Uma ou outra manifestação de preconceito contra "gente diferenciada", destacada no jornal, alimentou a fantasia mais cara à elite brasileira: a de que "elite" são os outros, não nós mesmos. Para limpar a própria imagem, nada melhor do que culpar nossos vizinhos.

Os vizinhos judeus, por exemplo. É este um dos mecanismos, e não o vagão de um metrô, que ajudam a levar até Auschwitz.

2º encontro nacional de blogueiros progressistas

terça-feira, 17 de maio de 2011

Olá pessoas,
Agora no mês de julho, mais precisamente entre os dias 17 e 19, Vai rolar o 2º encontro nacional de blogueiros progressistas em Brasília - DF.

O encontro é direcionado para todos aqueles que se relacionam com as midias digitais não apenas com o intuito de realizar contatos pessoais, mas que tenham nesse meio uma forma de militância na luta do povo brasileiro. Na estrutura proposta para o evento estão mesas redondas debates e palestras. As inscrições já estão abertas e está sendo vista a possibilidade de que ela contemple alojamento para a moçada também...
Seguem a programação e o site do Barão de Itararé, centro de estudos responsável pelo encontro.
Eu já fiz a minha inscrição!!!


17 de junho, sexta-feira
19 horas Palestra de abertura: “Os Desafios da Comunicação na Atualidade”
– Paulo Bernardo (Ministro das Comunicações)

21 horas Festa de confraternização

18 de junho, sábado
9 horas Debate: “A Urgência do Marco Regulatório das Comunicações”
– Fábio Konder Comparato (Jurista, autor da ação na justiça pela regulação da mídia)
– Luiza Erundina (Deputada federal e coordenadora Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular)
– Venício A. de Lima (professor da UnB, autor do recém-lançado “Regulação das Comunicações”)

14 horas Mesas autogestionadas
– Propostas já apresentadas: “Os Partidos e a Luta pela Democratização da Mídia”, “As Mulheres na Blogosfera”, “O Sindicalismo na Era Digital”, “A Luta pela Liberdade na Rede”, “Arte e Humor na Blogosfera” e “O Papel das Lan Houses”

18 horas Palestra: “O Papel da Internet nas Revoltas no Mundo Árabe”
– Almed Bahgat (Blogueiro egípcio)

19 de junho, domingo
9 horas Reunião em grupo
– Troca de experiências, balanço do último período e plano de ação da blogosfera

14 horas Plenária final
– Aprovação do documento do 2º Encontro, plano de ação e organização e eleição da nova comissão nacional organizadora


segunda-feira, 16 de maio de 2011


Ela era uma menina, não ela não era mais menina,mas se sentia menina ante a tudo e a todos que via.


Revia o tempo onde a menina vivia

Hoje ser menina era charme,

e isso ela achava que não mais conhecia

Reviu o tempo, as gentes, o primeiro beijo.

Mas era apenas a mulher quem revia,

A menina não mais vivia.

De repente ela se viu sozinha, sentiu-se abandonada.

Tinha medo do escuro e da noite fria.

E eis quem surge: A menina renascia.

Os medos, as dúvidas, toda a fantasia

Quedou-se em prantos na sala vazia

Não de gente, mas de gente da gente.

Estava perdida e a menina ressurgia

Vinha buscá-la, a ajudaria.

A noite passou e ela sabia que de mãos dadas com a menina pra casa ela voltaria


Essa mulher não se esquece de nada,

Essa menina não tem medo de nada.

No fim quem é mais forte?

A menina caminha na corda bamba, a mulher tem sempre os pés no chão

Quisera poder ser a menina sempre que der

E ser a mulher sempre que tiver razão

Quando a mulher diz: – Ser feliz não é pra mim...

A menina retruca e, num salto, grita: - Ué, por que não???

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O PC do B realiza essa sexta-feira, às 15h, o 1º Fórum Macro regional do Sertão do São Francisco no Auditório da Univasf. O fórum é fruto do 7º encontro nacional sobre questões de Partido, onde se discutiu a organização partidária e o papel da militância comunista na estrutura orgânica do partido. O encontro, que contará com a presença da Deputada federal e vice presidente nacional do partido, Luciana Santos, é voltado para dirigentes e militantes do PC do B em Petrolina e demais cidades da região.

Aviso da lua que menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

Elisa Lucinda

Sobre princesas, vilões e outras histórias...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Dias estranhos esses...
O mundo vê atônito a morte de bin laden num classico episódio de aplicação da lei de Talião do código de Hamurabi (Olho por olho, dente por dente...) A família real inglesa promove um casamento caríssimo do segundo na linha de sucessão ao trono, Pernambuco e o nordeste voltam a sofrer coma chuvas de outono. Já se foram as águas de março de Tom Jobim, mas as promessas permanecem.
Queria discutir um pouco esses fatos.
Muito se falou do conto de fadas moderno onde a princesa, ou melhor, duquesa, vai atrás do príncipe encantado. Nada de esperar a ação do acaso para o tão famoso felizes para sempre. E o fim dos contos de fadas tradicionais na verdade é o começo de uma outra história. A da monarquia parlamentarista que serve como ornamento a uma sociedade que transita entre o novo e as tradições (algumas bem bizarras, por sinal). Em tempos de redefinição do papel da mulher na sociedade ter que estar sempre um passo atrás do marido parece-me um hábito embolorado, medieval demais para a nova familia real. Num momento de crise econômica com o desemprego crescendo a 8%, pode-se dar ao luxo de ostentar um lauto banquete numa caríssima festa que celebra o casamento das massas e o que existe de mais simbólico quando se refere em privilégios e divisão de classe.
A morte de Bin Laden demonstra o interesse norte americano em se colocar, mais uma vez, acima do bem e do mal. Declarações como "ele estava desarmados mas ainda assim nós o matamos" ou "Utilizamos tortura por afogamento para recolher informações que não auxiliaram em nada" nos remete à invasão ao Iraque atrás de armas somente fabricadas na imaginação americana. Repudio veementemente a ação de Bin Ladem tanto quanto a ação americana que, em nome de uma democracia e da adoção do modelo americano, mata tortura , espolia toda uma nação. Será que só Bin Laden era o terrorista mesmo?
Começamos novas vidas. O principe casou com a duquesa e tenta perpetuar a malfadada monarquia britânica, O cara mal morreu e sua morte livrará o mundo das forças das trevas, enfim, a semana Disney ficará marcada nas mentes do mundo, sobretudo quando se avaliar que, no fundo, ainda temos mais do mesmo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011






Assisti ontem à Mamma Mia. Enquanto arranjo um tempinho para uma postagem decente, segue o vídeo de I have a Dream

Critica de Agrônomo à administração do Parque Josefa Coelho

sexta-feira, 11 de março de 2011

Reproduzo texto do agrônomo Emílio Luiz extraído do blog do jornalista Carlos Britto http://www.carlosbritto.com

Leitor do Blog denuncia (outra vez) abandono do Parque Josepha Coelho

O Engenheiro Agrônomo e leitor do Blog, Emílio Luiz, nos escreve um artigo relatando o criminoso abandono do Parque Josepha Coelho em Petrolina. Pelo visto a cidade inteira já viu osso. Menos a Prefeitura.

Leiam:

Gostaria de sugerir aos secretários municipais, vereadores, prefeito, entre outras autoridades da nossa cidade, que abram um pequeno espaço de tempo nas suas atribuladas agendas e façam uma visita ao único parque que existe na nossa cidade, o parque Josefa Coelho.

Lá, eles poderão observar “in loco”, o total abandono que vive o que poderia ser um dos cartões postais de Petrolina. Alambrados dos campos de futebol desmoronando, plantas que morreram por falta d água, lixo por todos os lados, pistas de caminhada esburacadas, campos de futebol que, devido aos buracos, viraram piscina nessa época de chuvas, entre outros.

Mas tudo isso passa alheio ao poder público municipal, que se faz de cego para os problemas. Certo dia encontrei com um assessor de um vereador da situação e comentei com o mesmo a situação do parque, e ele me respondeu que outras pessoas já haviam feito essa reclamação, e que ele pessoalmente foi ao parque, e não viu nada anormal (o oftalmologista dele deve ser o mesmo que está no cargo mais alto do poder público municipal).

O que mais chama a atenção é que Petrolina se auto intitula “Capital da Irrigação”, mas o que vemos é uma área urbana desprovida de áreas verdes. Temos abundância de tecnologia para irrigação, água, fertilizantes, técnicos, mas o poder público é incapaz de usar isso em prol de um bem comum, porque nem um simples sistema de irrigação existe no parque. Só ainda restam árvores, graças às chuvas do final de 2010 para cá, porque várias delas pereceram durante o período da estiagem.

Em meados de 2004, havia um projeto nessa cidade chamado “Adote o Verde”, que no primeiro momento contou com 80 estudantes, que ajudavam a plantar espécies nativas em praças, ruas e avenidas da cidade. Esse projeto visava, além da preocupação com o meio ambiente, desenvolver nas crianças e adolescentes a chamada “consciência ecológica”. Mas esse programa, nos últimos anos, pelo que vemos, foi abandonado pelo município.

Um índice (discute-se se este foi estabelecido pela ONU) sugere 12 metros quadrados de área verde por habitante para que haja equilíbrio entre a quantidade de oxigênio e gás carbônico. Se incluirmos todas as atividades com combustão (indústria, tráfego, atividades domésticas) este índice se eleva para 75 metros quadrados por habitante.

Praticamente todas as cidades brasileiras acusam menos de 5 metros quadrado por habitante, portanto, elas são deficientes em áreas verdes, fato que se explica pela falta de conhecimentos da importância das áreas verdes por parte das autoridades. Entretanto, temos exceções, como Goiânia, que é considerava a cidade mais verde do país, com 0,8 árvores por habitante, ou 94 metros quadrados de mata verde por habitante. Só para comparação, Edmonton no Canadá, que é mais verde do planeta, tem 100 metros quadrados por habitante.

Arborizar, não é só plantar, mas seguir um cronograma de atividades de manutenção, cabendo ao órgão público criar os meios que viabilizem a sua execução. Agora, como já está mais que provado que o poder público de Petrolina é incompetente na arte do gerenciamento, fica a sugestão de oferecerem ao governo do Estado à administração do parque Josefa Coelho, assim como já entregaram a administração do Hospital e a realização do carnaval da cidade.

Emílio Luiz

Engenheiro Agrônomo

Petrolina – PE

Márcia Galvão fala sobre o movimento estudantil

domingo, 13 de fevereiro de 2011


"Política não é o partidarismo, é você quem faz a política e ela se faz no exercício, não é na omissão. O cidadão é essencialmente político e ele precisa exercer isso na universidade para poder transpor os muros e fazer a sociedade melhor [...]"

Reproduzo entrevista feita por Elisson César, publicado no blog naesquinadacultura.blogspot.com


Em sua concepção, o que representa o movimento estudantil enquanto organização civil a favor de direitos que são, antes de tudo, direitos humanos?

A gente pode fazer uma análise do movimento estudantil atual e em outros momentos. E, enquanto movimento social humano, é de fundamental importância, até porque agrega interesses do estudante em si, mas agrega os interesses da juventude, sendo que a juventude sempre foi a banda da revolução, e aquele que permanece jovem ele guarda esse fervor da transformação, da mudança. Então o movimento estudantil tem essa alegria, essa vontade, essa disposição e luta. Sempre lutou, sempre teve como bandeira a questão dos direitos humanos de transformar, de modificar e de tornar melhor.

O que representou o movimento estudantil na sua vida acadêmica e qual a importância disso para sua formação política e intelectual?
Olhe, eu acho que o que sou hoje eu devo ao movimento estudantil. A minha visão de mundo e de vida foram formadas, sobretudo, no decorrer da minha militância, então as minhas escolhas, minha profissão e como eu me posiciono politicamente, grande parte disso foi construído no movimento estudantil.

Como você vê o movimento estudantil em nossa região hoje?

O secundarista foi perdendo a sua característica, ele foi se fragmentando e isso está atrelado à questão da luta pela quebra do monopólio da carteira que prejudicou muito. Você não ouve mais falar nos grêmios estudantis com a conotação que tinha na década de 1990, por exemplo. Essa organização não está existindo. Na universidade, eu sempre procuro saber o que está acontecendo, quais são as discussões, se elas existem. Mas a gente sabe que nacionalmente, no atual governo, o movimento estudantil praticamente estagnou pela própria questão ideológica, o movimento estudantil está nas mãos da UJS (União da Juventude Socialista) desde o final da década de 1980 e isso fez com que o PC do B desse um direcionamento ao movimento estudantil do ponto de vista político partidário mesmo. Quando Lula assumiu, o movimento estudantil se acomodou, então eu acho que isso acaba refletindo aqui na região, dentro das universidades e dentro das escolas.

Sabemos que a educação é o meio mais efetivo de emancipação política e social. De que forma teremos um sistema educacional que contemple a formação de sujeitos atuantes em nossa sociedade?

Primeiro eu acredito que muito a longo prazo, porque a educação não é prioridade e a gente sabe disso, mesmo com as propostas políticas e educacionais do atual governo. A gente percebe uma juventude que vive na era das incertezas, na era: “o que fazer?”. Porque os paradigmas foram rompidos, a luta ganhou outras conotações, a coisa ficou muito festiva, ideologicamente se fragmentou muito e a juventude passou a ter uma outra visão das questões. Não é que se despolitizou completamente, eu não acredito nesse discurso fatalista do fim da política estudantil, mas ela tem uma nova configuração e quem está no movimento estudantil tem que ter esse olhar, essa juventude não quer só a política pela política, quer a política, o lazer, a cultura... A juventude é outra, não é mais aquela juventude da redemocratização. Embora em muitos momentos são as mesmas, mas as lutas são outras, as exigências são outras e esse jovem também tem um comportamento diferenciado.

Recentemente tivemos a gratuidade da UPE (Universidade de Pernambuco) alcançada após vários embates políticos. Enquanto militante em sua época de estudante dessa instituição, qual a participação do movimento estudantil nesse processo?

Dentro da UPE, no período da década de 1990, onde inclusive fui presidente do Diretório Acadêmico, tínhamos um grupo chamado Nação Mandacaru e nós agitávamos os corredores daquela universidade com a proposta da gratuidade. Promovemos muitas discussões, muitas palestras, passeatas enormes no sentido de garantir isso e eu me sinto hoje como uma das pessoas que trilharam esse caminho, porque a gente deu continuidade a uma série de discussões que já vinham sendo realizadas por outros grupos, mas foi uma sacudida na universidade na época: problematizamos, argumentamos e buscamos muito. Isso teve uma continuidade depois, logo em seguida deu uma resfriada e agora é uma realidade, fruto do movimento estudantil, da luta dos estudantes que às vezes a gente pensa que é uma coisa imediatista, mas é algo que tem que ser trabalhado até ser alcançado e é inquestionável que os estudantes tiveram um papel decisivo nisso.

Qual a análise que você faz dos movimentos estudantis após o processo de redemocratização do Brasil, em especial durante o governo FHC (Fernando Henrique Cardoso)?

A partir do final da década de 1970, quando o movimento estudantil busca se reestruturar, ainda com todas as dificuldades de um regime fechado, percebemos a importância desse movimento para o processo de redemocratização. Eu tenho a lembrança ainda da década de 1980, adolescente em Salvador: as paralisações, as discussões que havia na escola – mesmo não permitidas – mas que foram extremamente importantes. Aí a gente vai ter o fora Collor que, claro, tem várias discussões acerca do que foi o movimento dos Caras Pintadas – se foi uma coisa que veio a reboque de algo que iria acontecer, de interesses políticos maiores – que teve uma importância muito significativa para a efetivação da mudança da política no Brasil.

Se a juventude não tivesse lutado, não tivesse organizado os grandes congressos da década de 1990, nós talvez não tivéssemos conseguido colocar Lula no poder, então ele também deve isso ao movimento estudantil, ao PSTU, ao PC do B, ao PT e à militância jovem com uma formação política muito forte, onde as discussões tinham um nível muito alto e que elevavam o nível de quem estava na universidade nesse período.

Na época do governo FHC, nós estávamos com esse grupo na universidade e a gente batia mesmo de frente, a gente contestava o papel de um sociólogo no poder, de um cara que tinha combatido a ditadura militar, que tinha um discurso de esquerda e que estava no poder deixando a juventude frustrada. Então, o movimento estudantil bateu de frente com ele. Nós chegamos a fazer camisas na universidade dizendo que ele usava uma máscara dos Estados Unidos. Ele era a representação de uma política neoliberal que não era o que a gente queria e que foi alvo de muitos embates do movimento estudantil na época.

O que você pensa sobre o vínculo de movimentos estudantis com alguns partidos políticos? A política partidária nesse contexto é uma realidade atual ou é histórica?

É histórico. Se você pensar que a fundação da UNE em 1937 tinha a presença do ministro da educação Gustavo Capanema e as deliberações de funcionamento dessa fundação foram determinadas nesse contexto. Uma das determinações era a seguinte: “o governo Vargas determina que não haja discussões políticas dentro da UNE”. Um aparelhamento total e completo; então era servindo cafezinho e discutindo o sexo dos anjos, porque assim o Estado Novo queria. E isso aconteceu durante toda a história da UBES e da UNE, ninguém pode ter a ingenuidade de achar que o movimento estudantil teve em algum momento desvinculado das questões partidárias, e nem é possível porque ideologicamente os indivíduos têm as suas opções e a eles não pode ser negado o direito de ter um partido político. Que democracia é essa? Porque você está no movimento estudantil não pode ter um partido? Você vai ter a sua ideologia, vai ter a teoria que você defende e você vai exercitar isso dentro dos movimentos sociais, e o movimento estudantil é um movimento social.

Ao falar em movimento estudantil, é difícil não relembrar o momento conflituoso da ditadura militar, tendo em vista que foi uma das organizações civis que representaram grande foco de resistência à repressão. O que você tem a dizer a respeito e qual a relação que se pode estabelecer com os movimentos ocorridos em 1968 na frança, por exemplo?

Isso faz parte de toda uma conjuntura mundial. Claro que a gente não pode romantizar muito, eu sempre trouxe para minha fundamentação e visão de movimento estudantil uma coisa muito romântica e depois você vai percebendo que não é bem assim. O contexto do Brasil acabou favorecendo que a gente tivesse uma identificação com as questões francesas inevitavelmente e nos Estados Unidos nós também vamos ter focos de resistência no mesmo período, então era uma juventude que tinha uma característica bem interessante de uma politização muito grande, onde a escola, a universidade não eram lugares apenas da educação formal, sistemática e livresca, mas era da formação política. As universidades e as escolas nos períodos de férias elas funcionavam pra discussões políticas, leituras de livros, de textos e era uma juventude que tinha uma proposta, não era uma juventude sem proposta, romântica sim dentro daquele panorama, mas a gente não pode negar a importância da resistência do movimento estudantil nas décadas de 1960 e 1970 pra a história do Brasil e pra história do mundo.

Nos deparamos com uma mídia dominante que não raramente tenta enfraquecer os movimentos sociais. Como você percebe essa influência dos meios de comunicação?

Eu percebo que isso perpassa pela questão da televisão, da música, da ideia de que o jovem é alienado e que ele não está interessado e que acaba surtindo um efeito logicamente. A resistência de quem acredita e persevera dentro do movimento estudantil é no sentido de lutar contra isso e não é fácil porque não é algo recente, sempre aconteceu, inclusive durante a ditadura militar. A prática de FHC de quebrar o monopólio da carteira, por exemplo, foi a prática de Figueiredo na década de 1970 que fez a mesma coisa e Fernando Henrique quebrou o monopólio para desestabilizar o movimento e para enfraquecê-lo economicamente e isso com o apoio irrestrito dos meios de comunicação, em ambos os casos, todos acharam que o caminho era esse: “tira o dinheiro e enfraquece o movimento”. Essa resistência tem que advir da própria consciência do jovem, de reconhecer o que é a mídia na vida dele, que ela vai ter uma influência muito forte e que o movimento estudantil tem que fazer essa discussão sempre, o que é que essa mídia intenciona? Não há nenhuma ingenuidade nisso, existe o interesse em enfraquecer os movimentos sociais porque inclusive vai combater a própria mídia.

Qual a importância da articulação do movimento estudantil com o poder público? Em sua opinião essa aproximação pode interferir na autonomia das entidades estudantis?

Também, mas é necessário. Se você pensar que hoje em Petrolina nós temos a meia entrada e a meia passagem isso foi uma luta muito local na década de 1990 em que nós fomos às ruas. A lei estava em Recife, mas a gente aqui no Sertão conseguiu a sua aprovação no governo Guilherme Coelho e como isso aconteceu? Indo para as ruas, fazendo passeatas e depois fazendo parte do conselho de transportes do município, nós tínhamos dois representantes no conselho de transportes, nós discutíamos com os empresários, com o sindicato dos motoristas e a prefeitura o valor da passagem. A gente fiscalizava as planilhas, discutia as coisas e a gente votava, isso era extremamente importante, hoje eu não sei como está, mas o movimento estudantil foi tirado dessas discussões, então é necessário porque se não como é que a gente pode fiscalizar, cobrar se você não está mais participando. A gente cobrava o direito de estar nas escolas na formação dos grêmios e a gente brigava por isso. Com relação à lei de meia entrada, quantas noites eu perdi na entrada de casas de show de Petrolina cobrando com a lei na mão que ela fosse cumprida, até que hoje a lei é nacional, mas os empresários não queriam cumprir e o movimento ganhou na força.

Ultimamente vemos a criação de vários movimentos alternativos e que criticam a atuação da UNE (União Nacional dos Estudantes) com o argumento de que não há mais uma representação efetiva dos estudantes e que a entidade está entregue ao governo. Qual a sua análise a esse respeito?

Primeiro que essa discussão não é nova, ela vem se arrastando de congressos em congressos com relação a esse atrelamento com o Governo Federal e lógico que se você tem ideologicamente as figuras do PC do B e do PT que sempre formavam as diretorias da UNE e da UBES, claro que se o PT chega ao poder junto com o PC do B esse atrelamento é maior e isso é inquestionável, só que a autonomia da UNE deve ser garantida pelos estudantes, não é pela diretoria, os movimentos acadêmicos: os Centros Acadêmicos e os Diretórios Acadêmicos eles têm que cobrar essa autonomia, só discutir a alternativa de outros movimentos, de outras entidades não sei se isso é legal, porque você vai enfraquecer toda uma história de UNE e pode ser resgatado, você não pode acabar com a entidade, porque a entidade não são as pessoas, é a entidade, as pessoas elas vão passar e isso tem que ser alcançado pela luta dos Centros Acadêmicos e dos Diretórios no sentido de garantir essa autonomia.

Temos conhecimento de que alguns que se apresentam como militantes são na verdade pessoas que se utilizam dos movimentos sociais como meio de aquisição de poder e de trampolim político para satisfazer interesses pessoais. Como você observa esse comportamento?

Quantos presidentes da UNE e da UBES se tornaram governadores, ministros, prefeitos e se você fizer um levantamento histórico disso vai se deparar com uma realidade ainda maior. O próprio José Serra que foi presidente da UNE, várias figuras que estão hoje no cenário nacional, que tiveram sua origem política no movimento estudantil, então eu acho que um dos principais exercícios da prática política é dentro dos movimentos sociais e se é um trampolim, que seja, melhor que saia do movimento estudantil, do movimento sindical, das associações de moradores do que apareça uma pessoa que caia de pára-quedas, do nada, que não tenha nenhuma vivência política e torne-se uma liderança partidária e política, eu sempre defendi isso. No entanto, concentrar no movimento estudantil apenas a possibilidade de se promover aí já é outra discussão. É o chamado estudante profissional, que se organiza no movimento porque tem a garantia de visibilidade e de regalias.

Por fim, em sua opinião, quais as principais bandeiras que devem ser defendidas pelo movimento estudantil na atual conjuntura do país?

Todas. Sejam políticas, culturais, econômicas, sexuais, todas são possíveis e devem estar em pauta no movimento estudantil, porque é uma coisa extremamente plural, é você pintar uma universidade, como dizia o Che, de todas as cores, não é pra ser preta ou branca. Todas as discussões devem acontecer, mas deve haver muito estudo, muita pesquisa pra não ficar se discutindo o inútil, até que o inútil também pode ser discutido, mas que tenha uma fundamentação e que não fique só nisso, você tem uma universidade que deve ser plural, então porque não permitir todas as discussões e elevar mesmo o nível de quem está entrando, da garotada. Política é isso, política não é o partidarismo, é você quem faz a política e ela se faz no exercício, não é na omissão. O cidadão é essencialmente político e ele precisa exercer isso na universidade para poder transpor os muros e fazer a sociedade melhor, não ficar no horizonte das quatro paredes, mas avançar profissionalmente, na sua família, na sociedade em que ele está inserido e no país, se ele ficar lá só naquela discussão de palavras bonitas, de belos discursos, não vai transformar, não vai mudar nada.

Márcia Galvão é pós-graduada em História e foi militante do movimento estudantil na década de 1990. Atualmente é professora da rede estadual de ensino na Bahia.

A entrevista teve a colaboração de Rodrigo Wanderley, Débora Cavalcante e Anderson Vieira, alunos do curso de Ciências Sociais da UNIVASF.

Freedom to Egypt

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Eu caio na rede, não tem quem não caia....."
Lenine