"E a poesia só espera ver nascer a primavera..." Vinicius de Morais

terça-feira, 27 de setembro de 2011

É primavera!!!
Poderia dizer da beleza da estação, dos dias quentes e ensolarados mas sem aquele calor escaldante de morte. Podia falar das flores e borboletas nos jardins, das cores a se espalhar por tudo, mas não...
Queria mesmo falar é da sensação que me invade a cada novo começo de primavera. É como a música onde as boas novas andam nos campos.
Primavera me remete, irremediavelmente, ao mito de Perséfone e Hades e, por quê não dizer, de Deméter. Pra mim é assim, essa sensação da volta do amor que Deméter sente quando sua filha volta do hades para passar metade do ano com ela, que eu sinto. É ver tudo a sua volta se colorir em festa pra essa chegada. É a vontade de ficar o dia todo, todos os dias ouvindo música bacana, lendo Vinicius de Morais e sonhando com os votos de amor jamais sonhados.
É a alegria dos bichos e o canto dos passarinhos a cada manhã de sol. É o nascer do sol no Rio São Francisco. É o insano desejo de amar o mundo e receber amor de volta e uma preguiça danada de amar o mundo.
É a esperança renascida, o começo de um radioso ciclo, beijar na chuva, ver um rosto se iluminar ao sol.
É um sopro profundo de vida.
Eu, Vanessa, nasci na primavera. Não podia ser diferente.
É nela que abro minhas asas ao sol.
Pra mim não é a toa que essa seja a época de maior inspiração para as paixões (sem contar com o carnaval, claro!), é como se tudo estivesse apaixonado sem ter por quê ou por quem.
E eu, cá no meu canto sigo, celebrando a primavera, as cores,  as flores e cheiro de amor que elas deixam pelo ar...

Segue o texto que eu queria ter escrito mas que é de Cecília Meireles

                                                        Foto: Fabrício Francisco
Flor de Mandacaru

Primavera
Cecília Meireles


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

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